NEWSLETTER Rede Artéria | 24 de abril de 2020
 
Caminho é o próximo espetáculo da Rede Artéria,uma criação da Mundo em Reboliço, com estreia prevista para setembro, em Belmonte. Os trabalhos de preparação, que começaram em janeiro, devido à atual pandemia, estão a ser reformulados e a Filipa Francisco começa com esta carta-mensagem, a partilha de um Diário de Bordo da peça.
 
Costa da Caparica
26 de março de 2020
 
 
 
Querida equipa, querido público,
 
desde casa, tenho Belmonte na cabeça e no corpo. Continuo a investigar. Os sons e vídeos que gravámos ajudam-me a relembrar e a continuar a imaginar a peça.
Imaginar uma peça é sempre imaginar o futuro. É sempre sobre algo que ainda nāo nasceu, que se forma a partir de várias ideias, imagens e que, depois de muitos ensaios e improvisações, acaba por ter um corpo e vontade própria.
 
Mesmo em casa, continuamos a sonhar o futuro.
Vai haver uma altura em que parece que já ninguém decide nada: a peça ganha corpo e vontade própria.
Das várias fotos tiradas, sons gravados, imagens filmadas, impressões e ideias, deixo-vos algumas em forma de lista para sonhar:
 
A voz do Tiago Pereira [ouvir AQUIa falar sobre memória afectiva e tradiçāo
 
 
A Queima do Entrudo, pelas ruas de Colmeal da Torre, caminhando em procissão, com velas, as pessoas juntaram-se para iniciar esta procissão pagā. As crianças entre o divertido e o assustado. O padre fingido, ia parando e discursando apregoando o vinho. Bolos oferecidos, copos de vinho e chouriça como hóstia. Um homem vestido de mulher chorava o entrudo e até à queima final do boneco de palha, gritou ai o meu marido, ai o meu marido!
 
 
 
O meu caderno, diário de bordo da peça
 
 
 
 
 
 
 
Do entrudo interessam-me os coros de maldizer: retirei esta frase do livro “A face do caos. Ritos de subversāo na tradiçāo portuguesa” de Aurélio Lopes:
"disfarçando a voz pela distorçāo mecânica do funil ou pelo esganiçar propositado, muitas destas acções recorrem à clandestinidade como fator indispensável do anonimato.”
 
 
 
 
 
 
 
Imagino improvisarmos nas ruas de Belmonte, com um funil, qual será o som que sai deste objecto? Como distorce a voz?
 
Sonho com voltar a sair sem medo, sonho com voltar a Belmonte
 
 
As mãos do Senhor Fernando Nelas [ver AQUI
Imaginei-o com Vivaldi (na verdade sonhei com as "Quatro Estações" durante uma semana) depois o Tiago Pereira pegou no meu sonho e no vídeo do Miguel Canaverde e criou a banda sonora.
 
 
 
Clique na imagem para ver o video
 
 
O Senhor Fernando explicou-nos o seu trabalho, o trabalho do cesteiro. Mostrou a posição em que trabalhava quando era jovem junto aos outros trabalhadores, em linha, juntinhos, com as pernas cruzadas. Ganhavam 2 escudos por dia. Um pāo custava 2 escudos. Trabalha no vime com muita segurança e movimentos de māos velozes. Ideia para filmar o sr. Fernando fazendo os gestos, sem o material, como se fosse uma coreografia. Ficou-se com vontade que trabalhasse na peça como artesão, fazendo máscara e revestindo o bombo de vime.
 
 
 
Muitos de vós ainda nāo me conhecem e esta carta também serve para isso.
Envio o video-documentário [disponível AQUI] do "saal", uma dos últimas peças, onde tal como aqui, parti de uma investigaçāo sobre o território, neste caso sobre as Salinas e as pessoas que trabalham e traballharam no sal.
 
 
Fotografia de Tiago Madeira
Clique na imagem para ver o documentário de Miguel Canaverde
 
 
Vamos continuar a trabalhar, a sonhar, vamos continuar ligados.
 
Beijos
Em
Extinçāo
 
Filipa Francisco
 
 
CAMINHO é um projeto de criação artística que será apresentado na zona histórica de Belmonte, a partir das biografias e narrativas dos residentes/utilizadores e a sua relação com a dimensão real/fictícia, poética, histórica, social e política dos locais, sobre o caminhar juntos, entrelaçando várias corporalidades.
 
 
 
 
A REDE ARTÉRIA é um projeto de intervenção sócio-cultural, com coordenação artística do Teatrão e académica do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que articula uma componente de programação cultural, criação, artística, acompanhamento científico e participação comunitária. Desde 2018, a REDE ARTÉRIA, cofinanciada pelo Centro 2020 - Programa Operacional Regional do Centro, tem promovido a criação e circulação de espetáculos em oito concelhos da Região Centro – Belmonte, Coimbra, Figueira da Foz, Fundão, Guarda, Ourém, Tábua e Viseu. A Rede junta artistas convidados a trabalhar nos contextos de cada um desses locais com os municípios, instituições académicas, agentes e estruturas sociais / culturais.
 
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